
DOGVILLE E A CONDIÇÃO HUMANA
Dogville não é um lugar de redenção. É um lugar de expiação. Existe aí uma diferença. Em Dogville confrontamo-nos com uma humanidade que é a nossa, mesmo que nos custe reconhecê-la em nós. O que se encena em Dogville é o limite, o sítio incerto em que caem as máscaras e se assume o que há de luminoso e de obscuro em cada rosto. O tema que nos é proposto não é o do perdão ou da vingança, mas tão só o do confronto com a nossa própria condição.
A elementaridade da questão, a invasão do recanto mais básico do Homem, começa por ter um paralelo no espaço despido em que as personagens se movimentam. Não existe nada a menos no dispositivo cênico. A quase inexistência do cenário obriga-nos a completá-lo e a concentrarmo-nos no que é essencial: o comportamento humano. Não nos é permitida a distração, não podemos desviar-nos do murro no estômago.
Dogville é um laboratório em que a cobaia é o gênero humano. Grace is missing, diz o cartaz afixado pela polícia. É essa Graça, aparentemente abandonada pelos homens, que vai expor a humanidade retratada em Dogville na sua faceta mais animalesca, mais selvagem. Ler este filme, na sua multiplicidade, dissecando as suas várias camadas, é ver a humanidade através da lente pessimista de Lars von Trier. Pessimista, não moralista.
Entre os críticos habituais, existem os admiradores, plenamente rendidos, e os detratores, que considera o filme de um cinismo execrável. O que, sem grande humildade, me parece é que alguns aspectos essenciais do filme passaram ao lado de muitos que já se pronunciaram.
Em A Praia que as personagens falham porque não têm nenhuma espécie de ambigüidade moral. Diz ainda que o filme é uma condenação 'daquela' humanidade, porque não admite que aquelas maldades estejam presentes, de maior ou menor forma, em todas as pessoas. Estas afirmações só são possíveis se ignorarmos um aspecto essencial do filme: cada personagem não tem (não tem de ter) ambigüidade moral porque são arquétipos, cada uma representa um pedaço de humanidade, e é no seu conjunto que surge a ambigüidade com que forçosamente nos confrontamos. E é essa humanidade (a nossa), e não apenas aquela aldeia ou a América, que está a ser dissecada e julgada. Não por von Trier, que se limita a lançar os dados, mas por nós.
Dogville não é um filme moralista e, como tal, também não é demagógico. O filme nunca chega a enunciar uma conclusão nem a demarcar um lado absolutamente bom. A narração de John Hurt, propositadamente neutra no tom e nas palavras, reforça esse sentido de imparcialidade na exposição dos fatos, deixando o julgamento a nosso cargo. O que acontece é que a violência da ação, e o sentimento de revolta que desperta, é demasiada para que nos sintamos confortáveis no silêncio. Lars von Trier poderá manipular-nos os sentimentos, mas não cria nada que não exista já no nosso íntimo.
No único momento em que o filme parece verbalizar uma moral, esta é morta juntamente com os habitantes de Dogville. O massacre ordenado por Grace impede que a vejamos como vítima sacrificial ou como detentora absoluta da razão. Todo o moralismo está na avaliação individual de cada espectador. Quando Grace deixa de acreditar na redenção e dá a ordem de execução, já há muito que cada espectador tinha deixado de lado essa fé nos homens. Quando as chamas se extinguem, tudo o que resta é aquele cão, a representação do lado mais selvagem do homem, agora completamente visível.
Dogville não é um lugar de redenção. É um lugar de expiação. Existe aí uma diferença. Em Dogville confrontamo-nos com uma humanidade que é a nossa, mesmo que nos custe reconhecê-la em nós. O que se encena em Dogville é o limite, o sítio incerto em que caem as máscaras e se assume o que há de luminoso e de obscuro em cada rosto. O tema que nos é proposto não é o do perdão ou da vingança, mas tão só o do confronto com a nossa própria condição.
A elementaridade da questão, a invasão do recanto mais básico do Homem, começa por ter um paralelo no espaço despido em que as personagens se movimentam. Não existe nada a menos no dispositivo cênico. A quase inexistência do cenário obriga-nos a completá-lo e a concentrarmo-nos no que é essencial: o comportamento humano. Não nos é permitida a distração, não podemos desviar-nos do murro no estômago.
Dogville é um laboratório em que a cobaia é o gênero humano. Grace is missing, diz o cartaz afixado pela polícia. É essa Graça, aparentemente abandonada pelos homens, que vai expor a humanidade retratada em Dogville na sua faceta mais animalesca, mais selvagem. Ler este filme, na sua multiplicidade, dissecando as suas várias camadas, é ver a humanidade através da lente pessimista de Lars von Trier. Pessimista, não moralista.
Entre os críticos habituais, existem os admiradores, plenamente rendidos, e os detratores, que considera o filme de um cinismo execrável. O que, sem grande humildade, me parece é que alguns aspectos essenciais do filme passaram ao lado de muitos que já se pronunciaram.
Em A Praia que as personagens falham porque não têm nenhuma espécie de ambigüidade moral. Diz ainda que o filme é uma condenação 'daquela' humanidade, porque não admite que aquelas maldades estejam presentes, de maior ou menor forma, em todas as pessoas. Estas afirmações só são possíveis se ignorarmos um aspecto essencial do filme: cada personagem não tem (não tem de ter) ambigüidade moral porque são arquétipos, cada uma representa um pedaço de humanidade, e é no seu conjunto que surge a ambigüidade com que forçosamente nos confrontamos. E é essa humanidade (a nossa), e não apenas aquela aldeia ou a América, que está a ser dissecada e julgada. Não por von Trier, que se limita a lançar os dados, mas por nós.
Dogville não é um filme moralista e, como tal, também não é demagógico. O filme nunca chega a enunciar uma conclusão nem a demarcar um lado absolutamente bom. A narração de John Hurt, propositadamente neutra no tom e nas palavras, reforça esse sentido de imparcialidade na exposição dos fatos, deixando o julgamento a nosso cargo. O que acontece é que a violência da ação, e o sentimento de revolta que desperta, é demasiada para que nos sintamos confortáveis no silêncio. Lars von Trier poderá manipular-nos os sentimentos, mas não cria nada que não exista já no nosso íntimo.
No único momento em que o filme parece verbalizar uma moral, esta é morta juntamente com os habitantes de Dogville. O massacre ordenado por Grace impede que a vejamos como vítima sacrificial ou como detentora absoluta da razão. Todo o moralismo está na avaliação individual de cada espectador. Quando Grace deixa de acreditar na redenção e dá a ordem de execução, já há muito que cada espectador tinha deixado de lado essa fé nos homens. Quando as chamas se extinguem, tudo o que resta é aquele cão, a representação do lado mais selvagem do homem, agora completamente visível.


Nenhum comentário:
Postar um comentário