domingo, 9 de novembro de 2008


DOGVILLE, O ESPAÇO PRESSENTIDO

Dogville necessita apenas das primeiras cenas para se revelar uma lição de arquitetura. Para um olhar deformado profissionalmente, Dogville pode ser um delicioso mundo experimental onde se colocam imediatamente questões sobre alguns dos conceitos arquitetônicos mais básicos, como o mecanismo espacial, o valor do corpo ou a noção de lugar.
Em Dogville, aldeia perdida nas Montanhas Rochosas do imaginário de Lars von Trier, os espaços são essencialmente definidos por linhas brancas desenhadas no chão, pelos movimentos dos atores e por sons de origem incerta. Em cada rodar de uma maçaneta invisível vê-se uma porta, em cada desvio do corpo vê-se um obstáculo. O que para muitos será um vazio desconcertante é, na verdade, um cenário completo, a que não falta nada. É um cenário dinâmico, que se constrói em cada gesto e em cada som.
O lugar é sempre menos o que se encontra e mais o que se deixa. Este lugar poderá ter limites virtuais mas eles estão lá, condicionando o movimento dos atores, obrigando a nossa imaginação a completar o que foi propositadamente deixado em branco. Estes limites não são invisíveis. Não conseguimos vê-los mas pressentimo-los de um modo quase palpável. Os espaços continuamente recriados de Dogville são espaços óbvios e cambiantes. A arquitetura compõe-se menos de objetos e mais de ambientes.
Cada espaço de Dogville é caracterizado pelo ambiente que as personagens lhe conferem, mais do que pelos adereços ou pelas marcas traçadas na madeira. O que caracteriza cada espaço é o posicionamento dos corpos em relação ao olhar da câmara, é o modo como sofrem ou deambulam com indiferença, é o rosto das desilusões de Grace ou o puritanismo dos habitantes de Dogville.
Quando pensamos na casa de Grace, no velho moinho, o que primeiro nos ocorre não é a cama ou o estrado ou a prateleira com as figuras de porcelana. A sua casa é, primeiro que tudo, o refúgio profanado, o lugar que Grace escolhe para chorar e tentar, em vão, proteger-se da violência que a visita todas as noites. Este ambiente define este espaço mais eficientemente que quaisquer paredes.
Quando, após o massacre de Dogville, o incêndio morre, já não existe nada. Nenhuma linha branca, nenhum adereço. Nenhum corpo. Já não existe um lugar, apenas um vazio. Dogville foi apagada.

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