O CORPO PERFEITO
A arquitetura clássica baseava-se na noção vitruviana de que as ordens derivavam da imitação do corpo humano, estabelecendo assim uma relação teológica entre corpo e arquitetura. Havendo esse sentido divino, era inevitável que a arquitetura fosse conduzida pensando num corpo ideal como unidade perfeita. A Ergonomia é a ciência da adaptação do ambiente ao corpo humano. Ergon deriva de organon e designa o trabalho de um órgão. Logo, a Ergonomia estuda cada componente do corpo como uma possível fonte de atividade, pelo que se pode dizer que a arquitetura ergonômica é uma arquitetura de corpos incompletos. Surge, uma vez mais, a figura do corpo ideal, o corpo a que o espaço se adapta.
A problematização do corpo na arquitetura contemporânea existe em Le Corbusier quando este cria o Modulor, que surge como uma tentativa de relacionar de modo unívoco o homem e o mundo. Le Corbusier estabelece um corpo modular, proporcional e harmônico, que seria a base da concepção espacial. O que Le Corbusier criou com o Modulor foi um sistema de medidas determinadas a partir do corpo humano, tratando, em seguida, de o implementar nas suas obras, com particular destaque para as unités d'habitation. Apesar do espaço ter sido supostamente criado a partir do estudo meticuloso do corpo, acaba por ser este a adaptar-se a um espaço por vezes diminuto. Há uma idealização rígida das dimensões, assente num corpo perfeito.
Não é a inocência ou o acaso que levam Le Corbusier a associar o corpo de um ginasta às suas casas, como se fossem habitantes-modelos. Aliás, todo o Movimento Moderno era entendido como um mecanismo protetor do corpo. Associavam-se-lhe a saúde e o exercício físico em oposição à doença. Esta interpretação do corpo saudável e ideal confirma a ligação das partes do corpo e das suas qualidades à machine à habiter, numa relação de ajuste perfeito. Mas para os numerosos corpos não-perfeitos, é uma pele por vezes difícil de assumir.
Para Le Corbusier, o arquiteto é um cirurgião (1). O Movimento Moderno produziu, com um certo detalhe e idealismo, a imagem de um corpo saudável. O corpo moderno abrigado pela arquitetura moderna não era um único corpo, mas uma multiplicidade de corpos. O corpo já não era um ponto estável de referência à volta do qual a arquitetura pudesse ser construída. Arquitetos como Le Corbusier e os seus colegas redesenharam ativamente o corpo com a sua arquitetura mais do que o acolherem ou simbolizarem (2).
1. Beatriz Colomina – The Medical Body In Modern Architectural in DAVIDSON, Cynthia C. (ed.) – Anybody, The MIT Press (1997): For Le Corbusier, the architect is a surgeon.
2. id., ibid.: The modern body housed by modern architecture was not a single body but a multiplicity of bodies. The body was no longer a stable point of reference around which an architecture could be built. Architects like Le Corbusier and his colleagues actively redesigned the body with their architecture rather than housing or symbolizing it.
A arquitetura clássica baseava-se na noção vitruviana de que as ordens derivavam da imitação do corpo humano, estabelecendo assim uma relação teológica entre corpo e arquitetura. Havendo esse sentido divino, era inevitável que a arquitetura fosse conduzida pensando num corpo ideal como unidade perfeita. A Ergonomia é a ciência da adaptação do ambiente ao corpo humano. Ergon deriva de organon e designa o trabalho de um órgão. Logo, a Ergonomia estuda cada componente do corpo como uma possível fonte de atividade, pelo que se pode dizer que a arquitetura ergonômica é uma arquitetura de corpos incompletos. Surge, uma vez mais, a figura do corpo ideal, o corpo a que o espaço se adapta.
A problematização do corpo na arquitetura contemporânea existe em Le Corbusier quando este cria o Modulor, que surge como uma tentativa de relacionar de modo unívoco o homem e o mundo. Le Corbusier estabelece um corpo modular, proporcional e harmônico, que seria a base da concepção espacial. O que Le Corbusier criou com o Modulor foi um sistema de medidas determinadas a partir do corpo humano, tratando, em seguida, de o implementar nas suas obras, com particular destaque para as unités d'habitation. Apesar do espaço ter sido supostamente criado a partir do estudo meticuloso do corpo, acaba por ser este a adaptar-se a um espaço por vezes diminuto. Há uma idealização rígida das dimensões, assente num corpo perfeito.
Não é a inocência ou o acaso que levam Le Corbusier a associar o corpo de um ginasta às suas casas, como se fossem habitantes-modelos. Aliás, todo o Movimento Moderno era entendido como um mecanismo protetor do corpo. Associavam-se-lhe a saúde e o exercício físico em oposição à doença. Esta interpretação do corpo saudável e ideal confirma a ligação das partes do corpo e das suas qualidades à machine à habiter, numa relação de ajuste perfeito. Mas para os numerosos corpos não-perfeitos, é uma pele por vezes difícil de assumir.
Para Le Corbusier, o arquiteto é um cirurgião (1). O Movimento Moderno produziu, com um certo detalhe e idealismo, a imagem de um corpo saudável. O corpo moderno abrigado pela arquitetura moderna não era um único corpo, mas uma multiplicidade de corpos. O corpo já não era um ponto estável de referência à volta do qual a arquitetura pudesse ser construída. Arquitetos como Le Corbusier e os seus colegas redesenharam ativamente o corpo com a sua arquitetura mais do que o acolherem ou simbolizarem (2).
1. Beatriz Colomina – The Medical Body In Modern Architectural in DAVIDSON, Cynthia C. (ed.) – Anybody, The MIT Press (1997): For Le Corbusier, the architect is a surgeon.
2. id., ibid.: The modern body housed by modern architecture was not a single body but a multiplicity of bodies. The body was no longer a stable point of reference around which an architecture could be built. Architects like Le Corbusier and his colleagues actively redesigned the body with their architecture rather than housing or symbolizing it.


0 comentários:
Postar um comentário